Introdução

A expansão acelerada dos veículos elétricos no Brasil vem transformando não apenas o setor automotivo, mas também a forma como edifícios residenciais, comerciais e industriais precisam ser projetados e adaptados. Garagens, estacionamentos e áreas técnicas que antes não exigiam atenção especial do ponto de vista elétrico e de incêndio passam agora a concentrar novos riscos, principalmente relacionados às baterias de íon lítio e aos sistemas de recarga.

Diante desse cenário, os Corpos de Bombeiros estaduais iniciaram movimentos para criar normas específicas voltadas aos Sistemas de Alimentação de Veículos Elétricos, conhecidos como SAVE. Um dos passos mais relevantes ocorreu recentemente com a abertura de consulta pública para uma norma técnica dedicada a esse tema. Mas afinal, o que isso significa na prática? Quais exigências podem mudar? E quem será impactado por essas novas regras?

Este artigo explica, de forma clara e técnica, o contexto da consulta pública, os principais pontos em discussão e o que profissionais, empresas e condomínios precisam começar a considerar desde já.


O que é a consulta pública para normas de carregadores de veículos elétricos?

A consulta pública é um instrumento utilizado pelos órgãos reguladores para ouvir profissionais do setor, empresas, entidades técnicas e a sociedade antes da publicação definitiva de uma norma. No caso da segurança contra incêndio, ela permite que engenheiros, projetistas, instaladores e gestores apontem riscos, sugerem ajustes e contribuam para regras mais aplicáveis à realidade das edificações.

No contexto dos carregadores de veículos elétricos, a consulta pública busca consolidar critérios mínimos de segurança para:

  • Projeto e instalação de carregadores em garagens e estacionamentos

  • Adequação elétrica das edificações

  • Medidas de prevenção e combate a incêndio associadas ao SAVE

  • Condições de operação e manutenção desses sistemas

A tendência é que essas normas sirvam de referência para outros estados e influenciem atualizações futuras em instruções técnicas e códigos de segurança contra incêndio em todo o país.


Por que os carregadores elétricos mudam as exigências de segurança contra incêndio?

Os sistemas de recarga de veículos elétricos introduzem riscos específicos que não existiam em garagens convencionais. Entre os principais fatores estão:

1. Baterias de íon lítio

As baterias utilizadas em veículos elétricos possuem alta densidade energética. Em situações de falha, impacto, sobrecarga ou aquecimento excessivo, podem ocorrer eventos de fuga térmica, que geram incêndios de difícil controle, com liberação intensa de calor e gases tóxicos.

2. Carga elétrica contínua e de alta potência

Diferente de outros equipamentos, os carregadores operam por longos períodos, muitas vezes durante a madrugada, exigindo redes elétricas dimensionadas corretamente e sistemas de proteção contra sobrecorrente, curto circuito e aquecimento de condutores.

3. Ambientes confinados

Grande parte das instalações ocorre em garagens subterrâneas ou fechadas, o que aumenta a necessidade de ventilação adequada, detecção precoce de incêndio e rotas de fuga seguras.

Esses fatores tornam insuficientes algumas regras tradicionais de segurança contra incêndio, exigindo normas mais específicas e técnicas.


Quais mudanças podem surgir com a nova norma técnica?

Embora o texto final da norma seja definido apenas após o encerramento da consulta pública, alguns pontos já aparecem como tendências claras nas discussões técnicas:

Requisitos para o local de instalação

  • Definição de áreas permitidas para instalação dos carregadores

  • Distanciamento mínimo entre vagas com carregadores

  • Restrições para instalação em subsolos sem ventilação adequada

Ventilação e controle de fumaça

  • Exigência de ventilação natural ou mecânica reforçada

  • Avaliação da necessidade de sistemas de exaustão específicos para gases liberados em caso de incêndio

Detecção e alarme

  • Uso obrigatório de sistemas de detecção automática de incêndio nas áreas com carregadores

  • Integração com sistemas de alarme já existentes na edificação

Sistemas de combate a incêndio

  • Possível exigência de chuveiros automáticos ou sistemas de supressão compatíveis

  • Dimensionamento adequado de hidrantes e extintores para incêndios envolvendo equipamentos elétricos

Sinalização e procedimentos operacionais

  • Sinalização específica para áreas com carregadores de veículos elétricos

  • Orientações de emergência para usuários, síndicos e equipes de manutenção


Quem será impactado por essas novas exigências?

As futuras normas de segurança contra incêndio para carregadores elétricos devem impactar diretamente:

  • Condomínios residenciais e comerciais

  • Shoppings centers e edifícios corporativos

  • Estacionamentos públicos e privados

  • Indústrias e centros logísticos

  • Empresas instaladoras e integradores de sistemas elétricos

Além disso, engenheiros, arquitetos e projetistas precisarão considerar essas exigências desde a fase de concepção dos projetos, evitando retrabalhos e custos adicionais no futuro.


O que empresas e condomínios podem fazer desde agora?

Mesmo antes da publicação oficial da norma, algumas boas práticas já podem ser adotadas:

  • Avaliar a capacidade elétrica da edificação antes de instalar carregadores

  • Consultar profissionais especializados em segurança contra incêndio

  • Verificar se o PPCI ou AVCB existente contempla equipamentos elétricos de alta potência

  • Priorizar projetos que considerem ventilação, detecção e combate a incêndio desde o início

Antecipar essas ações reduz riscos, evita não conformidades futuras e demonstra responsabilidade técnica e legal.


Conclusão

A consulta pública para normas de segurança contra incêndio aplicáveis a carregadores de veículos elétricos representa um marco importante na adaptação das edificações à nova realidade da mobilidade elétrica. Mais do que uma exigência burocrática, essas regras surgem para lidar com riscos reais e crescentes.

Empresas, condomínios e profissionais que acompanham essas mudanças e se antecipam às exigências estarão mais preparados para garantir segurança, conformidade legal e valorização dos empreendimentos. A mobilidade elétrica é uma tendência irreversível, e a segurança contra incêndio precisa evoluir no mesmo ritmo.