Quando uma construtora inicia uma nova obra, uma das primeiras dúvidas que pode surgir para o responsável pelo orçamento, planejamento ou execução é:

“Quais sistemas de combate e prevenção contra incêndio essa obra precisa ter?”

Essa pergunta parece simples, mas a resposta não é uma lista fixa.

Uma edificação pode exigir extintores, hidrantes e mangotinhos, detecção e alarme, iluminação e sinalização de emergência, sprinklers, controle de fumaça, compartimentação, resistência ao fogo, entre outras medidas. A definição depende das características da edificação e das exigências aplicáveis ao local. Normas estaduais, por exemplo, apresentam conjuntos de medidas que incluem tanto sistemas ativos quanto medidas construtivas de proteção.

Para quem está responsável por uma obra, entender essa lógica antes de solicitar materiais ou contratar a execução é fundamental.

O primeiro passo é entender que não existe um “pacote padrão” de incêndio

Um erro comum é imaginar que toda obra precisa simplesmente de:

  • extintores;
  • hidrantes;
  • sprinklers;
  • alarme;
  • iluminação de emergência.

Na prática, não funciona dessa maneira.

As medidas de segurança são determinadas a partir das características da edificação e do risco existente. Em São Paulo, por exemplo, o próprio serviço oficial de segurança contra incêndios informa que as medidas são estabelecidas conforme as normas e diretrizes do Corpo de Bombeiros.

Outros estados possuem seus próprios códigos, instruções técnicas e normas.

Por isso, antes de montar um orçamento, é necessário entender qual é a ocupação da edificação, suas características construtivas e quais riscos existem naquela utilização.


Quais informações preciso levantar antes de definir os sistemas?

Para começar uma análise, alguns dados básicos da obra são fundamentais.

1. Qual será a ocupação da edificação?

Uma indústria, um galpão logístico, uma loja, um shopping, um edifício comercial e um condomínio residencial possuem características de utilização diferentes.

E dentro de uma mesma edificação podem existir ambientes com características distintas.

Um shopping, por exemplo, pode reunir lojas, restaurantes, áreas de circulação, depósitos, estacionamentos, áreas técnicas e outras ocupações.

Isso significa que não basta olhar somente para a metragem total.

2. Qual é a área da edificação?

A área construída é um dos dados utilizados no enquadramento da edificação, mas não deve ser analisada isoladamente.

A combinação entre área, ocupação, altura, características construtivas e risco é que ajuda a determinar as medidas aplicáveis.

3. Qual é a altura e quantos pavimentos existem?

A altura e a configuração vertical da edificação podem alterar significativamente as necessidades de segurança.

Uma construção térrea e um edifício vertical, por exemplo, apresentam condições diferentes para evacuação, acesso das equipes de emergência e implantação dos sistemas.

4. O que será armazenado ou produzido no local?

Esse ponto se torna especialmente importante em indústrias e centros logísticos.

O tipo de material armazenado, produzido ou manipulado pode alterar o risco da ocupação.

Por isso, uma área de armazenagem de produtos comuns não deve ser automaticamente tratada da mesma maneira que uma instalação que trabalha com materiais combustíveis ou processos industriais específicos.


Quais sistemas podem fazer parte de uma obra?

Depois de entender as características da edificação, é possível identificar quais medidas de segurança precisam ser consideradas.

Entre as soluções que podem aparecer em um projeto estão:

Extintores de incêndio

São equipamentos de combate inicial e fazem parte das medidas de proteção contra incêndio previstas em diferentes regulamentações.

A quantidade, distribuição, capacidade e tipo de extintor não devem ser simplesmente definidos por uma regra genérica de “um extintor a cada X metros”. É necessário observar o risco e os critérios da regulamentação aplicável.

Hidrantes e mangotinhos

São sistemas destinados ao combate manual ao incêndio, utilizando uma rede hidráulica própria.

Dependendo da edificação, podem envolver:

  • reservatório;
  • bombas;
  • tubulações;
  • válvulas;
  • hidrantes ou mangotinhos;
  • mangueiras;
  • acessórios;
  • sistema de abastecimento.

Por isso, quando esse sistema está presente, ele deixa de ser apenas uma questão de comprar equipamentos e passa a envolver uma infraestrutura hidráulica de incêndio.

Sprinklers

Os chuveiros automáticos, conhecidos como sprinklers, fazem parte dos sistemas de proteção automática contra incêndio.

Sua necessidade e seu dimensionamento dependem das características da ocupação e dos critérios técnicos aplicáveis.

Em determinadas obras, especialmente aquelas com áreas comerciais, industriais ou de armazenamento, o sistema de sprinklers pode representar uma parcela importante da infraestrutura de proteção.

Detecção e alarme

Dependendo da ocupação e das características da edificação, pode ser necessária a instalação de sistemas para detectar um princípio de incêndio e emitir um alerta.

Esses sistemas possuem projeto e critérios próprios e devem ser compatibilizados com as demais soluções de segurança.

Iluminação e sinalização de emergência

Também podem fazer parte do conjunto de medidas necessárias.

A finalidade é auxiliar a orientação e o abandono seguro da edificação durante uma emergência.

Medidas construtivas

Nem tudo relacionado à segurança contra incêndio é equipamento.

Também podem existir exigências relacionadas a:

  • compartimentação;
  • resistência ao fogo;
  • controle de materiais de acabamento;
  • controle de fumaça;
  • saídas de emergência;
  • isolamento de risco.

Essas medidas são importantes porque a proteção contra incêndio não depende apenas de combater o fogo depois que ele começa. Ela também envolve reduzir a possibilidade de propagação e manter condições adequadas para abandono e resposta à emergência.


E onde entram os sprinklers?

Essa é uma das principais dúvidas para quem está levantando o escopo de uma obra.

A pergunta não deve ser simplesmente:

“Toda obra precisa de sprinkler?”

A pergunta correta é:

“Pelas características desta edificação e pela regulamentação aplicável, o sistema de sprinklers é exigido?”

Quando o sistema é aplicável, ainda existe uma segunda etapa:

Como ele será dimensionado e executado?

A partir daí entram questões como:

  • classificação da ocupação;
  • características do ambiente;
  • distribuição dos sprinklers;
  • rede de tubulação;
  • alimentação hidráulica;
  • válvulas;
  • suportação;
  • reserva de água;
  • bombeamento;
  • interferências com outras instalações;
  • compatibilização com arquitetura e estrutura.

É justamente nessa etapa que o projeto deixa de ser apenas uma questão documental e passa a envolver uma infraestrutura física que precisa ser executada corretamente.


E se a obra já tiver um sistema de incêndio?

Essa é uma situação muito comum em reformas, ampliações e novos empreendimentos construídos sobre uma infraestrutura existente.

Imagine uma indústria que vai ampliar seu galpão.

A primeira pergunta não deveria ser:

“Quanto custa instalar mais alguns sprinklers?”

Antes disso, é necessário verificar:

A infraestrutura existente suporta a ampliação?

Pode ser necessário avaliar a rede hidráulica, reserva de água, bombeamento, tubulações e demais componentes do sistema.

O mesmo raciocínio vale para um shopping que recebe uma nova loja ou modifica o layout de uma área existente.

Alterar paredes, forros, ocupação ou layout pode interferir na distribuição e na infraestrutura dos sistemas de proteção.

Por isso, aproveitar uma instalação existente não significa necessariamente que ela esteja automaticamente adequada à nova configuração da obra.


Como transformar essas informações em um orçamento?

Depois de entender quais sistemas serão necessários, chega uma etapa importante para qualquer construtora:

levantar o escopo para contratação.

Nesse momento, quanto mais definido estiver o escopo, mais fácil será comparar propostas.

Por exemplo, uma contratação pode envolver:

Projeto

Definição e dimensionamento do sistema, quando aplicável.

Materiais

Tubulações, conexões, válvulas, sprinklers, hidrantes, equipamentos e demais componentes.

Instalação

Montagem da infraestrutura e dos equipamentos.

Infraestrutura hidráulica

Quando aplicável, envolvendo reservação, bombas e distribuição de água para combate a incêndio.

Testes e entrega

Verificações e procedimentos necessários conforme o escopo e as exigências aplicáveis.

Esse detalhamento ajuda a evitar uma situação bastante comum em obras: receber dois orçamentos com valores muito diferentes porque cada empresa considerou um escopo diferente.


O que uma construtora deve enviar para pedir um orçamento?

Se a intenção é contratar uma empresa especializada para executar a instalação, algumas informações podem facilitar bastante o levantamento.

Sempre que disponíveis, é interessante reunir:

  • plantas da edificação;
  • projeto de prevenção contra incêndio;
  • projeto hidráulico;
  • arquitetura;
  • cortes e fachadas;
  • informações sobre a ocupação;
  • área construída;
  • altura da edificação;
  • informações sobre a atividade desenvolvida;
  • layout da área;
  • informações sobre sistemas existentes;
  • cronograma previsto da obra.

Quanto mais definido estiver o escopo, menor tende a ser a quantidade de premissas necessárias para elaborar a proposta.

E, caso ainda não exista um projeto suficientemente detalhado, isso também precisa ser informado antes da contratação.


O papel da empresa de instalação

Depois que os sistemas necessários estão definidos, a construtora pode contratar uma empresa especializada para executar determinada parte da obra.

Nesse cenário, é importante separar três coisas:

O que precisa ser protegido

É definido a partir das características da edificação e das exigências aplicáveis.

Como o sistema deve ser projetado

Depende dos critérios técnicos, normas e regulamentações pertinentes.

Como o sistema será executado

Envolve materiais, mão de obra, montagem, testes, compatibilização e condições reais da obra.

Essa separação é importante porque uma empresa pode ser contratada para executar uma instalação sem que isso signifique que ela seja responsável por definir sozinha todas as exigências da edificação.


Como saber exatamente o que uma obra precisa?

Na prática, o caminho pode ser resumido em cinco etapas:

1. Identifique a ocupação da edificação

Entenda o que será realizado naquele espaço e quais atividades ocorrerão nele.

2. Levante as características da construção

Área, altura, pavimentos, configuração e demais características relevantes.

3. Identifique os riscos existentes

Considere materiais, processos, armazenamento e características específicas da atividade.

4. Consulte o projeto e a regulamentação aplicável

A definição deve considerar as exigências do Corpo de Bombeiros competente e as normas técnicas pertinentes.

5. Só então defina o escopo de contratação

Com os sistemas e serviços identificados, fica muito mais fácil levantar materiais, comparar propostas e contratar a execução.


Conclusão

Saber quais sistemas de incêndio uma obra precisa não começa pela escolha de um extintor, sprinkler ou hidrante.

Começa pela análise da própria edificação.

O tipo de ocupação, área, altura, características construtivas, atividade desenvolvida e riscos existentes ajudam a determinar quais medidas de segurança deverão ser consideradas. A regulamentação aplicável também varia conforme o estado e as características da edificação. Atualmente, por exemplo, diferentes Corpos de Bombeiros mantêm conjuntos próprios de normas técnicas e procedimentos para definir essas medidas.

Para uma construtora, fazer esse levantamento antes de iniciar as compras ou contratar a execução é importante para transformar uma necessidade genérica de “instalação de incêndio” em um escopo técnico de contratação.

 

E é justamente a partir desse escopo que se torna possível solicitar propostas mais completas para a execução de sistemas como sprinklers, hidrantes, redes hidráulicas de incêndio, casas de bombas e demais soluções aplicáveis à obra.